A MULHER NAS SAGRADAS LETRAS
As Sagradas Escrituras – Antigo e Novo Testamentos,
nem sempre deram às mulheres a justa atenção por sua participação na história
da Salvação, desde a Revelação – Deus que fala aos homens na linguagem dos
homens; passando pela Eleição do Povo de Deus e Sua Aliança cujo ápice é Nosso
Senhor Jesus Cristo.
Num primeiro momento a mulher é aquela que, seduzida
pela serpente do pecado, induz Adão a consumir o fruto da Árvore do
Conhecimento. Depois contemplamos Sara, que não nos apresenta um perfil
simpático, chegando a rir-se da promessa de Deus a Abraão que, apesar de sua
idade, recebe a notícia de uma paternidade tardia. Inclusive a própria imagem
feminina de Israel, descrita em Ezequiel 16 é de uma mulher ingrata, adultera e
infiel. É evidente que esta visão negativa do feminino na Bíblia não é unânime.
Reflete as múltiplas influências sociais, políticas, antropológicas e
teológicas expressas nas tradições Javista, Eloísta, Sacerdotal e Deuteronômica
que se deu na confecção das Sagradas Escrituras, inclusive nos momentos em que
essas tradições se confundem ou se fundem criando novas tradições. Fenômeno que
de certa forma ocorrerá quando dos escritos neotestamentários.
Mas não é essa a imagem que devemos reter em nossas
retinas teológicas, em nossa visão de fé, antecedendo-nos inclusive à chegada
da Santíssima Virgem nos Evangelhos.
Lanço meu olhar para Rute.
Tudo o que Rute significava para o Israel primitivo.
Ser estrangeira, ser pobre, ser viúva, ser mulher, mas fora a ela dada a
oportunidade de ser avó de Davi.
A história da salvação nos encanta por esses
desencontros entre uma suposta lógica social por um renovar-se espiritual trazido
pela Divina providência ao trazer ao ramo genealógico de Davi – e com isso ao
de Jesus Cristo, a figura de uma mulher que fere de morte a lógica judaica de
uma mulher ideal.
Sim. A figura de Rute é pragmática. Em si,
contraditória, inclusive, mas sobretudo encantadora e nos conduz a compreensão
das mulheres do Novo Testamento, sobretudo as mulheres companheiras de missão
de Nosso Senhor e as presentes na Igreja primitiva.
De Eva a Maria havia Rute. Não como uma pedra a
impedir-nos a passagem, mas sobretudo como doce maná, a alimentar-nos todos,
pois era estrangeira, pobre, viúva e mulher. Sobretudo mulher.
Texto do Professor PAULO CÉSAR DOS SANTOS, historiador e teólogo católico.
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