ASPECTOS POLÍTICOS, SOCIAL E RELIGIOSO DAS GRANDES NAVEGAÇÕES
As chamadas grandes navegações do século XVI são divisores de água na
História da Igreja Católica, que veio a sofrer uma grande turbulência em 1517,
com a publicação das 95 teses de Martinho Lutero, monge agostiniano que se
revoltara com os rumos da Igreja.
Lembremos que até o final do século XV, acreditava-se que a Igreja já
tinha evangelizado todo o mundo. Estava presente na África, na Europa e
começava a ingressar na Ásia, com tentativas nem sempre felizes de se evangelizar
e cristianizar o Japão e a China, principalmente. Mas em apertada síntese,
estava sim, presente no mundo até então conhecido, o que justificava a máxima atribuída
a São Cipriano, embora já presente nos escritos de Orígenes: “Fora da Igreja,
não há salvação” (“Extra ecclesiam nulla salus!”).
As grandes navegações tinham com isso, além de motivações econômicas,
também objetivos de natureza religiosa e pastoral, qual seja, realizar o
projeto de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Ide pelo mundo e pregai o Evangelho a
toda a criatura (Mc 16, 15)”. Nisso, além de evangelizar as novas terras,
precisava a Igreja consolidar-se onde já tinha realizado essa tarefa.
Sob o aspecto político, a Igreja enquanto guardiã da civilização cristã,
estava atrelada aos interesses das coroas portuguesa e espanhola, até porque a
Espanha, especialmente, era uma nação católica, e seus regentes tidos e ditos
como Rei e Rainha Católicos. A potestade cristã e o poder temporal chegavam a
se confundir, respondendo as ações eclesiásticas aos interesses das nações
ditas cristãs.
Do ponto de vista social, descortinava-se novas relações de poder, com a
burguesia emergindo desde o fim da Idade Média com a queda de Constantinopla
(1453), o fim do Sistema Feudal, fortalecimento dos burgos, retomada da vida
urbana e comercial, e fortalecimento do Estado centralizado e Absolutista. A
Igreja medieval agora enfrentava novos e complexos desafios, inclusive de ordem pastoral
e teológica.
Quando do suposto descobrimento do Brasil, a Igreja estava presente, por
meio da presença de Dom Henrique de Coimbra, frade e posteriormente Bispo
lusitano, que no dia 26 de abril de 1500 (pelo calendário atual, seis de maio),
um domingo, aqui celebrou a primeira missa, erigindo em solo brasileiro a Cruz
de Cristo. Percebamos que apesar da chegada dos portugueses em terras
brasileiras tenha se dado no dia 22 de abril, somente quatro dias depois
realiza-se a primeira missa, num Domingo de Páscoa, cena eternizada pelo quadro
“A Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles, datada de 1860.
Durante cerca de 34 anos, a presença portuguesa em terras brasileiras se
deu de forma esporádica, com algumas viagens para salvaguardar a território em
favor dos portugueses e contra a invasão, principalmente a francesa, e início
da exploração do pau brasil, madeira vermelha, como brasa, e que fornecia
tintura muito apreciada pelos europeus.
Terra já habitada, quando da colonização definitiva das terras
brasileiras pelos portugueses, quis a Igreja evangelizar (catequizar,
doutrinar) os seus habitantes primitivos, tendo sido designados para esse fim
os “filho” de Ignácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (Jesuítas), que
aqui chegaram nos idos de 1549, liderados pelo Padre Manuel da Nóbrega, que
acompanhava a caravana do primeiro Governador Geral Tomé de Souza. A finalidade
era a de evangelizar por meio da alfabetização.
Diferentemente da colonização espanhola, os padres jesuítas não tiveram
grandes entraves teológicos no processo de catequização dos indígenas
brasileiros, pois os consideravam “homens”, dotados de alma e espírito como
qualquer ser humano, porém carentes de conhecer a figura de Nosso Senhor Jesus
Cristo e o seu Evangelho, o que se deu pelo processo de aculturação, que
consiste na negação da cultura local e sua substituição pela cultura europeia.
Já no processo de colonização espanhola – apesar da Igreja ser uma,
travou-se discursões teológicas bastante acirradas entre teólogos que negavam a
humanidade dos indígenas e aqueles que defendiam essa humanidade e a dignidade
que daí deriva, sendo o grande porta-voz desta corrente teológica junto à coroa
espanhola o Padre Bartolomeu de Las Casas. Vale ressaltarmos que enquanto os
brasileiros foram catequisados por sacerdotes e religiosos Jesuítas, a América
Espanhola foi catequisada por padres e religiosos dominicanos, ou seja,
seguidores de Santo Domingo de Gusmão.
Em conclusão, as Grandes Navegações promoveu a ampliação do ministério
evangelizador da Igreja, reanimou o ímpeto missionário de seus membros, trouxe
novas preocupações teológicas para o teólogos católicos e foi determinante para
o crescimento do catolicismo que ganhando adeptos também nas Américas, ganha
aliados contra a reforma que se iniciara com Lutero.
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